É VERDADI CUMPADI!

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Agora tamo em rede, mas com o pé no chão.
Toda semana ocê vai encontrar aqui as feição de nosso arquivo e as prosa desse nosso imenso vale caipira.
Lugar que tem muita coisa boa pra escafunchá.
Tudo em vorta de um fogão de lenha, com as gostosuras que nossa gente faz.
Tem ainda os parpites pra passeá, mostrano as lindura da natureza procê se espriguiçar no finar da sumana.
João Rural - Diretor
Ao Mestre com Carinho

No final da década de 50 tomei o primeiro contato com o Seu Siqueira. Na Rua Morta, meu pai passou para comprar as doses do farmacêutico mais respeitado da cidade. Eram as doses e outros remédios salvadores de muitos doentes. Era famoso um preparado para a dor de barriga.
Na década de 60 tive novo contato com o mestre, já no curso ginasial, onde ministrava aulas de matemática. Era um professor exigente e sistemático, mas por isso mesmo respeitado.
No final da década de 70, pude realmente entender quem era esse homem para Paraibuna. Muitos da cidade o olhavam meio de lado, principalmente alguns políticos.
Em longas conversas com Seu Siqueira, pude saber um pouco de sua vida e de seus pensamentos. Por viver e pensar muito além de seu tempo, Seu Siqueira tinha, logicamente, seus antagônicos na cidade.
Mas viveu seu caminho tranquilamente, fazendo suas receitas, tocando e cantando na Igreja com o Coro, sendo Juiz de Paz e, principalmente, compondo músicas e escrevendo seus poemas, sempre em homenagem a cidade de Paraibuna e seus costumes.
Muita coisa que ele criou, ficou perdido no tempo, principalmente porque algumas pessoas da cidade não concordavam com seu pensamento “ modernista” . Então, ele preferiu ficar imbuído em suas criações, seu violino, onde era um verdadeiro mestre.  A imagem que todos mais lembram é do Seu Siqueira dando sua volta pela cidade, cumprimentando a todos, dando tapinhas no rosto de quem podia. Certa vez em conversa com ele, soltou a seguinte frase: 

“ O futuro é de vocês e eu sempre estarei ao lado dos jovens. Velho retrógado, não adianta nem me procurar, porque velho retrógado tem é que ficar em casa. Eu vou continuar dando minha voltinha. O futuro é dos jovens”

O Mestre completaria cem anos em agosto

Seu Siqueira, durante a noite de autógrafos de seu livro, em 1981

Familiares  de Seu Siqueira e autoridades, por ocasião  do sancionamento da Lei que criou a Fundação Cultural “Benedicto Siqueira  e Silva”, em 4 de dezembro de 1994.

No dia 30 de agosto de 1902, com o sol rasgando o manto de neblina que envolvia, a pacata cidade de Paraibuna, sorriu com certeza, ao ouvir o vagido do mais novo filho desta Terra, que viera ao mundo naquela noite de inverno que antecedera a manhã. E o lar modesto do casal José Soares de Siqueira e Anna Rosa de Siqueira e Silva estava regozijando de alegria e felicidade, com a vinda à luz de um rebento, que no livro de assento de nascimento do Cartório da cidade veio a ser registrado com o nome de Benedicto Siqueira e Silva, nome confirmado na pia batismal da Igreja Matriz de Paraibuna.
Muito magro e de resistência física aparentemente precária, recebeu durante toda sua infância e adolescência, os cuidados especiais de seus pais, que policiaram seus passos e direcionaram sua educação, sempre no sentido da área da saúde.
De inteligência brilhante e habilidade invejável, logo cedo liderava as brincadeiras, construía pipas e “papagaios” que elevava ao ar contra o vento, fabricava balões coloridos, que subiam para o alto junto com os seus sonhos de menino. Em 15 de dezembro de 1915, ao concluir o “ Curso Preliminar”, no Gruipo Escolar Dr. Cerqueira César, recebeu das mãos do ilustre Diretor Eduardo José de Camargo, o respectivo “ Certificado de Habilitação” .
Cursou em seguida o segundo grau na Escola que viria a ser conhecida mais tarde como Colégio Estadual e Escola Normal Nogueira da Gama, em Guaratinguetá, e lá fez o preparatório para a Escola de Farmácia que frequentou em seguida, na simpática cidade de Pindamonhangaba.
De Pinda, Seu Siqueira, como tornou-se conhecido, guardou as melhores recordações de seu tempo de estudante, das serestas e dos bailes que eram animados pelo violão que executava com habilidade ímpar, e que lhe granjeou o apelido carinhoso de “Zé Violão”. Nessa época, ainda, além das aulas na Escola de Farmácia, tornou-se mestre na insuperável habilidade de manobrar os tacos na difícil arte de Bilhar Francês, ou o popular “carambola”, como é vulgarmente conhecido.
Formou-se na tradicional “Escola de Pharmácia e de Odontologia” de Pindamo-nhangaba, recebendo das mãos do Diretor, Dr. Monteclaro César, no dia 15 de dezembro de 1923, o título de Pharmacêutico. Recebeu também como prêmio, por ter sido aprovado todos os anos, e concluído o curso em primeiro lugar, com Nota 10 em todas as cadeiras, um anel de formatura, que guardava com carinho e exibia com orgu-lho.
Em 1924 estabeleceu-se com a Farmácia São José em  Paraibuna. Exerceu a profissão com todo o amor, dedicação, carinho e desvelo até o ano de 1969, quando encerou a parte comercial, porém continuou atendendo aos amigos e fregueses graciosamente, orientando tratamentos de doentes através de suas “fórmulas” e “ poções” tradicionais.
Durante todo o tempo que exerceu a profissão, entremeou as suas atividades com várias funções públicas que exerceu durante sua vida. Assim, por duas vezes exerceu as funções de Promotor Público e Curador Geral, nomeado pelo eminente Juiz Dr. Getúlio Evaristo dos Santos, conforme Portaria N. 40, de 28 de maio de 1929 e Portaria N.41 , de 17 de junho de 1929. Exerceu as funções de 2. Suplente de Delegado de Polícia, nomeado pelo Chefe de Polícia do Estado de São Paulo, Dr. Cordeiro de Faria, em 26 de janeiro de 1932. Ocupou durante muitos anos o cargo de Juiz de Paz e de Casamentos, e no exercício dessas funções, foi chamado, em várias oportunidades, para assumir o cargo de Juiz de Direito da Comarca de Paraibuna, em substituição ao MM. Juiz Titular Dr. Áureo Cerqueira Leite.
Elegeu-se vereador à Câmara Municipal de Paraibuna por várias legislaturas. Foi candidato à Prefeito Municipal, por partido de oposição ao Governo do Estado, que exerceu na ocasião, todo tipo de pressão, para que fosse eleito o candidato do Governo.
A vida do Seu Siqueira ficou indelevelmente marcada por vários traços que caracterizavam a sua personalidade. Metódico, o método era o artigo primeiro da lei que regia a sua vida. Tudo era feito no tempo e na hora certa e com rito certo. Tinha hora certa para todas as suas atividades, desde o momento que acordava até a hora que dormia.
Autodidata - Lia e estudava, além do tempo que para isso era reservado, aproveitando todos os momentos que lhe sobrava. Tinha obsessão por novos conhecimentos. Gostava de estudar, desde a matemática, com a qual se divertia resolvendo problemas intrincados de álgebra e aritmética, até História da Civilização, que conhecia profunda-mente, passando por toda gama de conhecimentos de línguas, incluindo o latim, geografia, ciências, etc
Músico - Era profundo conhecedor e de rara sensibilidade. Deixou várias obras de ex-traordinária beleza, infelizmente quase todas perdidas. Somente para ilustrar, de certa feita ele compôs uma Missa solene e encaminhou ao Dr; Carlos de Campos, que na época era Governador do Estado de São Paulo, pedindo para que fizesse a crítica da obra. Campos era profundo conhecedor de música, mandou celebrar a missa no Mosteiro de São Bento, em São Paulo.
Após a missa, ao invés de crítica, ele mandou um convite para uma bolsa de Estudos em Milão, para aperfeiçoa-mento de música. Tocava vários instrumentos porém especializou-se no violino, instrumento que executava com raro virtuosismo.
Durante 50 anos, com muito amor e dedicação, regeu o Côro da Igreja Matriz de Paraibuna.
Poeta-Estilo essencialmente romântico, de muita inspiração e lirismo, destacou a beleza de nossa natureza, do rio que tanto amava, das flores e dos perfumes em nossos corações ao evocar momentos felizes outrora vividos, da Banda de Música e do coreto, do cinema no velho barracão do mercado, das Semanas Santas e outras festas religiosas e dos saraus luxuosos nos opulentos casarões. Cantou sobretudo, nos seus versos, o amor. Cantou o amor a erra e a sua gente. Cantou com invulgar ternura o amor a família, a mãe, esposa e filhos e seus versos eram tão ternos que até hoje se sente o calor de sua voz.
Mestre- Era no ensino que ele mais se realizava. Tudo o que aprendia em muitas horas de estudos, era para transmitir aos seus alunos. E queria aprender cada vez mais, para transmitir cada vez melhor. Não media esforços nem sacrifício para ensinar , sem se preocupar com qualquer contribuição. Quando foi criado o primeiro Ginásio de Paraibuna, junto ao Orfanato Santo Antonio, dirigido pelas Irmãs de Caridade, ele lecionou durante quatro anos consecutivos, sem receber qualquer remuneração.
Assim, a maior dádiva que recebia era ver o seu aluno caminhar em frente, no rumo firme de um futuro seguro, e se possível colhendo louros e alcançando a glória.
Pintor - Jamais teve uma formação clássica, mas no seu estilo primitivo, resguardou a imagem de velhos casarões, e deixou gravado em várias telas o retrato colorido de nossa querida Paraibuna antiga.
Com tudo isso, inteligência e cultura, era sobretudo humilde. Amava os pobres e as crianças, principalmente as desamparadas. Por isso que foi durante muito tempo Presidente do Asilo de São Vicente de Paulo, em Paraibuna. Gostava de conversar durante longo tempo com os velhinhos a quem levava sempre um remédio e uma palavra de carinho, de amizade e de conforto. Procurava, dessa forma, mitigar-lhes os sofrimentos do corpo e da alma.
As crianças ele procurava sempre orientar e mostrar o bom caminho, da verdade e da virtude. Amava os jovens porque seu espírito foi sempre jovem, jamais envelheceu. Nunca qualquer pessoa chegou até ele e saiu sem uma palavra de carinho, de estímulo, ou de otimismo.
Depois de 58 anos de união matrimonial, vividos todos com o mesmo amor, faleceu em 2 de agosto de 1987, deixando entre nós sua amantíssima esposa, Da. Anésia Barreto de Siqueira e Silva, os filhos Maria Clélia de Siqueira Salerno, casada com Dr. Cássio Salerno, Dr. José Barreto de Siqueira e Silva, casado com Dalva França de Siqueira e Dr. José Lamartine de Siqueira e Silva, casado com Olinda A . de Siqueira e Silva. Deixou 7 netos e 2 bisnetos.

            Teve, enfim, todas as virtudes de um anjo bom que trouxe muito amor, alegria, carinho, amizade, para todos que com ele conviveram, e quando partiu, atendendo o chamado do grande Pai Celeste, deixou órfão, não somente a sua família, mas todo o povo de Paraibuna que hoje, mais do que nunca, por todo amor que ele dedicou, e que existe, faz parte como nós, da mesma família, da nossa família, e por tudo o que foi e fez, não o esquecerá jamais. (José Barreto de Siqueira e Silva)

O VIOLINO CALADO

Ao inesquecível pai, amigo, músico e poeta, Benedito Siqueira e Silva.

Quando te vejo, violino, assim calado,
Mudo, sem vida, como o mestre que partiu,
Lembro-me que ainda há pouco, alegre, afinado,
O mais belo canto de amor de ti surgiu.

Quando o arco tocava as cordas distendidas,
Movido pela mão do mestre que te amava,
Tu treinavas canções alegres, divertidas,
Outras vezes gemias de amor e até choravas.

Hoje ao ver-te violino, assim calado,
Sem som,  sem vibração, sem rítmo, sem trinado,
Minha’ alma geme e chora a dor dos separados.
Preferia que estivéssemos ainda unidos,
Trilhando juntos o caminho dos ungidos,
Ou deitados todos três de lado a lado

ALMA DE MUSICO

Quem conheceu e conviveu com o Seu Siqueira, pode lembrar muito bem sua capacidade musical. Autodidata em música, melhorou seus conhecimentos com o famoso maestro Póca.
Em conversa com ele, na década de 70, Seu Siqueira informou que conseguiu seu primeiro violino, comprado pelo seu pai, de uma Folia de Reis que visitou a cidade na década de 20.
Ele foi um dos primeiro músicos do cinema na cidade, cujas primeiras exibições aconteciam dentro do Mercadão. Seu Siqueira e outros músicos assistiam ao filme primeiro, numa sala fechada, para depois tocarem na hora da exbição pública.
Quando saiam da  sala, o povo estava na porta, querendo saber como era o filme. Mas eles não contavam nada.
Durante a vida participou das serestas da cidade e se dedicou muito a fazer músicas religiosas. Aliás, foi Mestre Capela, dirigindo o Coro Paroquial por muitos anos.

            É dele a música do Hino de Santo Antonio e do Tri-Centenário, com letra do Pe. Ernesto. Fez ainda várias partituras para as músicas de missa. Muitas dessas partituras estão salvas por integrantes do Coro Paroquial, mas seria necessário que isso tudo fosse registrado, para que não se perca no tempo.
Canção Paraibunense

Terra de Sonho e de encantos mil
Ninho de amor, recanto da felicidade
Em cada rosto há sempre um sorriso em flor
Em cada canto mora a dor de uma saudade
Oh! quem me dera junto de ti um dia
Viver no doce enlevo em que eu vivia
Naquelas frescas, lindas madrugadas
Com sabiás cantando à beira das estradas

Debaixo desse céu azul
Concha enfeitada com estrelas de prata
Das noites, na serenata
Se ouvia o som mavioso de uma serenata
E sob os raios virgens de luar
Que são punhais ferindo corações
A fascinação  do meu sonhar
Ouvindo essas canções.

Tenho saudade do teu lendário rio
Do chororão com aquele seu chorar perene
Dos pirilampos com lanterninhas azuladas
Daqueles grandalhões lampiões de querosene
Tenho saudade do Morro do Rocio
Das borboletas de azas esmeradas

E dos sabiás cantando à sombra das ramadas.
 
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